crepúsculo
.
.
o sol se pôe
como quem se põe
no lugar de um amigo,
breve instante
em que a noite
não se opõe ao dia
o ir do sol supõe
antecipar estrelas
e conspirar silêncios
.
.
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o sol se pôe
como quem se põe
no lugar de um amigo,
breve instante
em que a noite
não se opõe ao dia
o ir do sol supõe
antecipar estrelas
e conspirar silêncios
.
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.
ontem,
te vi uma idéia:
clara,
simples,
forte e,
sobretudo,
original
o dia estava escuro
e a noite foi longa
mas sobrevivemos,
eu e minha idéia
de você
.
por certo era tua,
a bunda
que ontem vi passar
entre orgulhosa e ingênua,
as coxas ostentando
o meneio que me fez soprar
o assobio de vidro
e te seguir pela rua
em completo abandono,
feito cão que reconhece o dono
vendo agora teu rosto
pela primeira vez
- que desgosto!
o nariz, arisco,
arrogante,
o queixo decidido
a boca rubra, petulante
e seus trinta e dois dentes
devendo sorrisos
não teria te reconhecido
não fosse a fumaça
do meu cigarro
avivando um tanto quanto
teu tão pouco expressivo
olhar
A bunda são duas bochechas
que engoliram olhos, nariz e boca
À bunda não interessa ver,
pois o que quer é ser vista
À bunda não interessa cheirar,
posto que conhece seu cheiro de bosta
e isso lhe basta
Da boca,
a bunda tampouco precisa,
pois em que pese o conteúdo
abundante
a bunda
não é profunda
e pouco tem a dizer
A bunda se define
em movimentos ondulantes:
à medida que avança,
a bunda,
é um convite à dança
- Foto: Kraw Penas
ver-me velho
ver-me verme
ver meus olhos
vermelhos
ver
ter
em
sangue
o espelho
a vida insana
o gosto do nada
a noite insone
as horas medidas em pontas de cigarro
o gosto do nada
deitado no catre emprestado
o emprego emprestado
até o poema emprestado
só a morte devolvida
A taça,
o gesto em falso,
o gosto de ameaça.
O olhar que desfere
o vôo torto,
não tão ágil que,
não impeça de,
próximo da promessa,
desabar frágil
num chão de ruínas.
A suposta vítima,
única testemunha,
se escusa com enjôo,
e sepulta, ali mesmo,
do outro,
o instinto último
de existir.
Anjo coxo,
ri-se ele agora
da própria morte,
vivendo como um irmão
em nossa companhia.
texto captado com câmera de celular da tela de um lap-top.
de marcelo de angelis sobre poema de marcos pamplona.